O fiasco do Übermensch
Desde 1997, não há registrado caso algum de nascimento de bebês portadores da síndrome de Down na costa leste dos Estados Unidos.
Enquanto para alguns o fato é motivo de entusiasmo frente ao progresso científico da humanidade ou razão para louvar a Deus por uma bênção concedida, para outros - para nenhuns, para quase ninguém- se está diante de uma barbárie. No entanto, e “hay que decirlo”, posicionar-se de acordo com tamanha brutalidade é mostra de excessiva inocência ou de total desprezo por nossa condição de ser humano.
A propósito, que ser é esse ao qual atribuímos o caráter de humano? É o ser que tem capacidade de sofrer e sentir dor e prazer? É o ser autônomo apto a determinar-se de acordo com seu projeto pessoal de vida? É o ser-intelecto, a ”coisa pensante” em contraposição àquilo que se constitui tão somente numa dimensão material? É o ser concebido à imagem e semelhança de Deus? É o ser dotado da dignidade e da moralidade que lhe munem de um poderoso distintivo em meio à comunidade natural?
Bem, justamente a partir da resposta dada a esse tipo de questionamento, finca-se a pedra angular da postura que se tem frente a grandes problemas de nossa época marcada, digamos, por tanta rejeição à nossa falibilidade. Se se dá prioridade tão-somente à autonomia, se alija do umbral da humanidade os sujeitos não-autônomos, doentes, inválidos, insanos. Se se prioriza a racionalidade, se nega a corporeidade que também nos é inerente, abrindo caminho a uma coisificação do corpo humano, que seria mais um dos vários objetos suscetíveis de propriedade e tratos negociais. Se, em contrapartida, se adota o critério da dignidade e da moralidade, considera-se ser humano todo ser dotado de dignidade e moralidade, todo ser que encerra um fim em si mesmo, que não é passível de ser instrumentalizado. Bem, tomo partido pela última acepção.
Afinal, não se pode tomar como essência do ser humano um ou alguns dos vários modos de ser humano. Pode-se ser humano e autônomo, humano e são. De igual forma, existem os humanos débeis, os humanos não-autônomos. Acontece que reconhecer nossas falhas e fraquezas, nossos defeitos e vulnerabilidades, pouco a pouco vai se tornando um fardo insuportável. Avançam a ciência, a tecnologia e a robótica, não há limite ao progresso (viu, Planeta Terra?). Estandarizam-se o belo e o prazeroso. Põe-se preço e marca à felicidade. Cultuam-se o fútil e o êfemero, o envernizado. O prazer é aqui e agora, o mais não se tolera, o mais é sofrimento.
Diante dessa realidade, por que se limitar à imperfeição humana? Por que não ir além? Por que não eliminar esses incômodos rasgos de humanidade que desmascaram uma essência comum? Sim, todos, do alto de nossa nobre moral, guardamos profundo respeito por uma criança Down ou por um bebê que sofre de algum câncer congênito. Mas, cá pra nós, que isso se passe com os filhos dos outros. Nossos filhos serão fortes, sãos, lúcidos, criativos, belos, inteligentes, perfeitos. E, francamente, se podemos pré-determinar geneticamente sua perfeição, por que não fazê-lo? Não negamos que os seres humanos não incluídos em nosso arquétipo platônico de “perfeição” não sejam humanos, nós não somos maus! Acontece que a nossa prole será melhor, apenas isso. Ora, que mal há nisso?
Pois bem, nisso há todo o mal. Há o mal que apelidaram de eugenesia. Há o mal de fabricar humanos e de descartar outros. Há o mal de glorificar a uns com a perfeição e alijar a outros tantos “não-perfeitos”. Há o mal de manipular o que temos de mais imanipulável: a nossa essência falível. Somos humanos enquanto somos passíveis de erros (o tal do “errar é humano” não é balela), enquanto temos necessidades.
A idéia da busca pelo super-homem assumiu em nossos tempos contornos impressionantes. Procura-se avidamente tudo o que nos afasta dessa massa repugnante que nos forma. O rosto e o corpo se mudam, a cultura (ou o que nos metem goela abaixo como tal) se importa, a linguagem se imita. Os fracassos se escondem, os defeitos se dissimulam, as 77 capas encobrem o que há dentro. Tudo isso até o fim: até que nos transformemos exatamente no que não somos. E assim, só assim, deixaremos de ser para que sejamos.
Permanecemos na espera pelas luzes que surgirão quando, enfim, o ser humano ousar lançar mão de sua própria razão. Até lá, deixemos que João Kléber ou Kelly Key o façam por nós.
(Quanto aos embriões, células-tronco e afins, ainda preciso refletir um bocado. Idéias em reformas constantes. Desculpem os incovenientes.)