Friday, October 5, 2007

Das necessidades

O que diferencia a necessidade dos meros desejos ou vontades é a interferência da possibilidade de escolha nestes últimos. Não escolhemos o que necessitamos, embora possamos eleger aquilo que constituirá o que desejamos. Tanto mais elementares as necessidades quanto mais proximamente derivarem de nossa condição humana.

 

Certamente, temos de respirar, comer, estabelecer relações sociais, dormir. E o temos porque assim nos impõe a nossa condição. As condições traduzem-se em limites, por óbvio, cerceando-nos liberdades. No entanto, mais e mais, toda sorte de necessidades vem sendo criada pela grande inventividade humana, como se impossível que assim não fosse. Explico-me: se as necessidades encerram, sob um certo ângulo, privações, por que insistimos em necessitar sempre mais? Por que tanto queremos nos limitar, ao invés de expandir-nos? Precisamos de um corpo escultural, de muito dinheiro, de tudo quanto supérfluo. Temos de ser superiores, invejados, cobiçados, temidos, admirados.

 

E por que razão? Por que o fútil, em um paradoxo que a realidade tornou admissível, é tão imprescindível? Parece trivial e aceitável o fato de uma menina de 18 anos trabalhar por um ano para comprar-lhe um par de próteses de silicone ou pagar-lhe um tratamento para alisar os cabelos; o culto ao bem-estar meramente consumista  (“comprei esse celular de R$1.000,00 porque me sinto bem assim”); pelo bem da sagrada auto-estima, a indispensabilidade de vazios elogios motivados por fotos e banalidades publicadas em fotologs, blogs, orkuts; o charme cool dos vícios do álcool, nicotina, maconha, sintéticos (etc ao infinito).

 

Sublime, sublime mesmo, é desatar amarras, desvencilhar-se de algemas. Faz falta sermos um pouco mais Ícaro, um pouco mais Prometeu, um bocado mais Buda. É absurdo o que nos fazemos. Não precisamos de tanto! Quanto mais precisamos, menos margem de manobra temos para buscar caminhos (ainda que tortos) alternativos, para nos sentirmos bem, livres. Satisfazer essa gama de frivolidades que têm o disfarce de necessidades é impossível. Seremos sempre insatisfeitos, decepcionados, frustrados. Difícil é se dar conta de que bem mais interessante  do que criar necessidades e limitações burras é ir além do pacote de limites artificiais que esse sabido mundo novo gentilmente nos deu de presente.

 

Um brinde a Schopenhauer e a seus pessimistas apontamentos sobre a felicidade!

 

 

 

 

 

Posted by Diana at 04:01:39
Comments

2 Responses to “Das necessidades”

  1. Bruno R says:

    mas se classificar pra porra da libertadores seria querer demais? ¬¬

  2. Bruno R says:

    reformulando: “mas nao ser rebaixado seria querer demais?” :(

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