Saturday, August 25, 2007

Moção de apoio às sinapses

 

Gostar de filosofia provoca desconfianças. De filosofia não se gosta;se necessita. Por vezes tenho a impressão de que as pessoas pensam na filosofia como um mero portfolio da erudição, um manto de lugares-comuns que revolve o vazio reflexivo. Isso de gostar de refletir é como gostar de ter de se alimentar ou de ter de respirar para preservar a vida. É como se nos fosse dada a faculdade de pensar ou não, ou, ainda, como se nos fosse permitido dispor da condição humana. Ora, não se renuncia à qualidade de ser humano, tanto quanto não se renuncia à corporeidade e ao pensar (ou ao “existir”cartesiano).

De fato, cômodo mesmo é cerrar os argutos olhos – por vezes  inquisitoriais - da consciência e passar a só enxergar aquilo que deliberadamente externamos. Em Entre quatro paredes, Sartre denuncia esse comportamento humano com genial perspicácia. Uma das personagens da peça, ao ver-se sozinha consigo mesma, sem espelhos e sem que ninguém lhe prestasse qualquer atenção, percebe que se voltar para dentro de si é insuportavelmente angustiante, que sozinha ela não era, vez que só era a exata medida daquilo que aos outros se mostrava. Ela era a consciência do outro. Sua essência não existia; era puramente aparência. Nunca havia se preocupado com a construção e os moldes de sua essência, e assim seguia existindo. Sob esse prisma é que o quase-jargão satreano “a existência precede a essência” supõe nada mais que atribuir ao ser humano a responsabilidade pela árdua tarefa de construir-se a si. Não foi Deus quem nos fez, somos nós quem nos fazemos. Essa responsabilidade, é bom que se ressalve, é tal que engaja toda a humanidade. É dizer, o homem deve construir sua essência de forma a tornar-se um parâmetro para quaisquer considerações acerca da humanidade. É como se se admitisse, por exemplo, que um ser extraterrestre colhesse um ser humano como amostragem e aquele que fosse pinçado tivesse  a responsabilidade de corresponder à idéia que os alienígenas formularão a respeito de toda a humanidade. Ora, se o ser humano que serviu de amostra é vil, será vil  a humanidade. Se, por outro lado, o escolhido é um ser virtuoso, assim serão considerados todo homem e toda mulher. A ação humana é, pois, a ação da humanidade.

 

Assim que por mais que se apregoem efusivamente um hedonismo irresponsável e uma total submissão do ser humano a seus instintos primitivos, insisto em prezar pelo extremo contrário. Fingir não ser humano e não ter responsabilidades perante nossas condutas é uma escusa de consciência frágil, é um subterfúgio inconseqüente. É preciso deixar de pejorativamente atribuir a um círculo restrito de intelectualóides a necessidade de refletir, apontando que o fazem somente por mera vaidade erudita. Não. Refletir é para todos quanto humanos. Filosofia é necessária, não é um mero distintivo de intelectuais rasos. O que acontece é que ser responsável por si e pela humanidade é fardo demasiado pesado para nós todos e a esquiva afigura-se bem mais atrativa do que a assunção de deveres. Nós refletimos, nós filosofamos, nós somos responsáveis pelo que somos e fazemos. Não é a vida que nos leva, somos nós que levamos a vida (desculpe-me, Zeca Pagodinho). Ou se tem em mente que o homem e a mulher são antes de mais nada sujeitos pensantes ou passemos a esperar o desfecho caótico dessa massa de objetos à qual um dia, por infelicidade, se atribuiu a pecha de ‘humanidade’.

 

 

 

* Eu sou chata mermo, véi

 

Posted by Diana in 14:28:53
Comments

3 Responses

  1. Bruno R says:

    acho dispensavel esse “o homem E a mulher”. ainda mais 2 vzs no mesmo texto. me lembra aquela coisa bem petista de “boa noite a todos e a todas” argh!

    é, eu tb sou chato..

    mas achei massa o texto, mormente “Não é a vida que nos leva, somos nós que levamos a vida (desculpe-me, Zeca Pagodinho)” ;)

  2. Bruno R says:

    ah, Diana, “homem” é o nome da espécie. esse negocio de politicamente correto às vezes é um saco. então vamo falar “os cavalos e as éguas”, “os carneiros e as ovelhas”, “os macacos e as macacas”?
    eu acho dispensável. aliás, mais do qus isso, irritante mesmo. agora se alguém quer demonstrar sua ideologia (feminismo?) com isso, go on!

    ps. eu falei petista em vez de esquerdista pq quis poupar a esquerda. ;)

  3. Mariana says:

    doideira, belíssimo texto. visitarei mais o seu blog.

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