Moção de apoio às sinapses

Gostar de filosofia provoca desconfianças. De filosofia não se gosta;se necessita. Por vezes tenho a impressão de que as pessoas pensam na filosofia como um mero portfolio da erudição, um manto de lugares-comuns que revolve o vazio reflexivo. Isso de gostar de refletir é como gostar de ter de se alimentar ou de ter de respirar para preservar a vida. É como se nos fosse dada a faculdade de pensar ou não, ou, ainda, como se nos fosse permitido dispor da condição humana. Ora, não se renuncia à qualidade de ser humano, tanto quanto não se renuncia à corporeidade e ao pensar (ou ao “existir”cartesiano).
De fato, cômodo mesmo é cerrar os argutos olhos – por vezes inquisitoriais - da consciência e passar a só enxergar aquilo que deliberadamente externamos. Em Entre quatro paredes, Sartre denuncia esse comportamento humano com genial perspicácia. Uma das personagens da peça, ao ver-se sozinha consigo mesma, sem espelhos e sem que ninguém lhe prestasse qualquer atenção, percebe que se voltar para dentro de si é insuportavelmente angustiante, que sozinha ela não era, vez que só era a exata medida daquilo que aos outros se mostrava. Ela era a consciência do outro. Sua essência não existia; era puramente aparência. Nunca havia se preocupado com a construção e os moldes de sua essência, e assim seguia existindo. Sob esse prisma é que o quase-jargão satreano “a existência precede a essência” supõe nada mais que atribuir ao ser humano a responsabilidade pela árdua tarefa de construir-se a si. Não foi Deus quem nos fez, somos nós quem nos fazemos. Essa responsabilidade, é bom que se ressalve, é tal que engaja toda a humanidade. É dizer, o homem deve construir sua essência de forma a tornar-se um parâmetro para quaisquer considerações acerca da humanidade. É como se se admitisse, por exemplo, que um ser extraterrestre colhesse um ser humano como amostragem e aquele que fosse pinçado tivesse a responsabilidade de corresponder à idéia que os alienígenas formularão a respeito de toda a humanidade. Ora, se o ser humano que serviu de amostra é vil, será vil a humanidade. Se, por outro lado, o escolhido é um ser virtuoso, assim serão considerados todo homem e toda mulher. A ação humana é, pois, a ação da humanidade.
Assim que por mais que se apregoem efusivamente um hedonismo irresponsável e uma total submissão do ser humano a seus instintos primitivos, insisto em prezar pelo extremo contrário. Fingir não ser humano e não ter responsabilidades perante nossas condutas é uma escusa de consciência frágil, é um subterfúgio inconseqüente. É preciso deixar de pejorativamente atribuir a um círculo restrito de intelectualóides a necessidade de refletir, apontando que o fazem somente por mera vaidade erudita. Não. Refletir é para todos quanto humanos. Filosofia é necessária, não é um mero distintivo de intelectuais rasos. O que acontece é que ser responsável por si e pela humanidade é fardo demasiado pesado para nós todos e a esquiva afigura-se bem mais atrativa do que a assunção de deveres. Nós refletimos, nós filosofamos, nós somos responsáveis pelo que somos e fazemos. Não é a vida que nos leva, somos nós que levamos a vida (desculpe-me, Zeca Pagodinho). Ou se tem em mente que o homem e a mulher são antes de mais nada sujeitos pensantes ou passemos a esperar o desfecho caótico dessa massa de objetos à qual um dia, por infelicidade, se atribuiu a pecha de ‘humanidade’.
* Eu sou chata mermo, véi