
Raniely vestia vermelho. Ela ia bem de vermelho, naquele vestido com botõezinhos em forma de flores. Era espevitada, divertida, dada. Me olhava e ria. Perguntou o que era ‘aquilo’ na minha orelha, respondi que se tratava de um brinco e que talvez fosse feito com folhas. Ela achou bonito, pediu pra ver, tocou e cheirou e tentou quebrar. Ficou com o presente p’ra ela. E queria mais. Queria que eu tirasse meu esmalte vermelho e colorisse suas unhas, queria meu anel prateado, meus óculos escuros. Queria que eu voltasse a vê-la. Me pedia promessas.
Kelly me espreitava discretamente. Não posso determinar quanto de curiosidade ou medo, de admiração ou suspeita continha seu olhar. Do alto de seu metro-e-trinta entornava o pescoço e me fitava incessantemente. Seguia de perto cada movimento meu. Pedi para segurar sua mão – ela não soltou mais. Colou em mim até a despedida. Difícil deixá-la. Abracei-a fortemente e, ainda assim, ela se pôs de plantão ao lado da janela do carro até cessar qualquer contanto visual entre nós.
O senhor com a camisa aberta era eloqüente. Falava com a propriedade (propriedade!) dos que sabem o valor de sua vida e de sua luta. Disse que tentavam dissuadi-lo de seus propósitos, comprar seus ideais, tornar míope seu entendimento perfeito. Tachavam-no de visionário imbecil. E tudo isso doía em mim, assim como doía nele. Doía bem mais nele. Feriam aquilo tudo em que eu acredito e defendo, mas, principalmente, feriam a dignidade da vida dele. Sua voz embargava quando dizia que todos ali sabiam trabalhar, eram fortes, competentes, tinham experiência com o trato da terra, eram dispostos. Seu orgulho fosco, além de inquietar, me arrancou um choro contido. O brilho de suas palavras não ofuscava – a realidade, por si própria, faz as vezes de lentes escuras, e a lucidez fosforescente, em vez de cegar, dá mais nitidez à perversidade desse mundo.
A mãe de Pedrinho disse que, na escola, nenhuma criança queria ser amiga dele. Seu José perguntava se, depois dos 40 anos, o homem devia parar de comer, já que estava descartado de qualquer emprego. Todos sabiam que são pintados como bichos-papões, que a mídia deturpa tudo o que são e fazem. Mas sabem de sua força e de seus objetivos, sabem dos perigos do imediatismo e das dificuldades de uma vida dedicada à difícil luta pela dignidade do trabalhador rural, sabem do poder que tem sua organização e entendem a razão pela qual tentam desorganizá-los. Eles sabem de tudo isso. Nós, playboyzinhos universitários, é que sabemos nada e pouco temos a ensinar. Dessa nossa realidade vazia, não há o que passar adiante.
Os sem-terra contrastam conosco, os sem-alma com tudo. Tudo temos e tudo necessitamos, sem que sejamos algo mais que espectros translúcidos. Eles querem nada mais que não migrar e não integrar a nada atraente realidade das periferias urbanas. Querem nada mais que poder ser dignos trabalhadores rurais no Brasil, esse grande latifúndio… Que atue a dialética, pois essa balela de fim da história não convenceu.