Monday, March 26, 2007

Da série “Como ser motivo de piada pro resto da vida” (ou “Cantadas que ela não esquece”)

 

  1. “Você é a gata da night. Vamos passar o ano-novo juntos… aqui, em Pipa, em Saturno (!!!) ou em qualquer outro lugar?”
  2. “É o seguinte: meu namorado quer ficar com seu namorado e aí eu teria que ficar com você…”
  3. “… é que eu tou esperando minha tia. Eu moro sozinho e ela ia ficar lá em casa. É tão ruim morar sozinho. É ruim demais. Eu moro no Bessa. Você vai muito ao Bessa?”
  4. “Vamos lá num apartamento em Intermares? A gente podia escutar uma música eletrônica (!!!)…”
  5. “Seu sapato é muito bonito. Qual o seu nome?” (ainda que ela esteja usando uma sandália)
  6. “¡Olé, olé, olé!” (movimentos de toureiro)
  7. “Você parece  roqueira, meio moderna, mas com certeza vai gostar de dançar arrochado comigo.”
  8. “Boa tarde, princesa! Está com raiva? Por que tão séria? Teve um dia ruim? Sorria!” (exclusiva para cobrador de ônibus, sob o sol das duas da tarde)
  9. “Eu que sou fácil ou você que é irresistível?”
  10. “Posso te dar um abraço?” ( ;* )
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Monday, March 12, 2007

“Essa luta é p’ra valer!”

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Raniely vestia vermelho. Ela ia bem de vermelho, naquele vestido com botõezinhos em forma de flores. Era espevitada, divertida, dada. Me olhava e ria. Perguntou o que era ‘aquilo’ na minha orelha, respondi que se tratava de um brinco e que talvez fosse feito com folhas. Ela achou bonito, pediu pra ver, tocou e cheirou e tentou quebrar. Ficou com o presente p’ra ela. E queria mais. Queria que eu tirasse meu esmalte vermelho e colorisse suas unhas, queria meu anel prateado, meus óculos escuros. Queria que eu voltasse a vê-la. Me pedia promessas.

Kelly me espreitava discretamente. Não posso determinar quanto de curiosidade ou medo, de admiração ou suspeita continha seu olhar. Do alto de seu metro-e-trinta entornava o pescoço e me fitava incessantemente. Seguia de perto cada movimento meu. Pedi para segurar sua mão – ela não soltou mais. Colou em mim até a despedida. Difícil deixá-la. Abracei-a fortemente e, ainda assim, ela se pôs de plantão ao lado da janela do carro até cessar qualquer contanto visual entre nós.

O senhor com a camisa aberta era eloqüente. Falava com a propriedade (propriedade!) dos que sabem o valor de sua vida e de sua luta. Disse que tentavam dissuadi-lo de seus propósitos, comprar seus ideais, tornar míope seu entendimento perfeito. Tachavam-no de visionário imbecil. E tudo isso doía em mim, assim como doía nele. Doía bem mais nele. Feriam aquilo tudo em que eu acredito e defendo, mas, principalmente, feriam a dignidade da vida dele. Sua voz embargava quando dizia que todos ali sabiam trabalhar, eram fortes, competentes, tinham experiência com o trato da terra, eram dispostos. Seu orgulho fosco, além de inquietar, me arrancou um choro contido. O brilho de suas palavras não ofuscava – a realidade, por si própria, faz as vezes de lentes escuras, e a lucidez fosforescente, em vez de cegar, dá mais nitidez à perversidade desse mundo.

A mãe de Pedrinho disse que, na escola, nenhuma criança queria ser amiga dele. Seu José perguntava se, depois dos 40 anos, o homem devia parar de comer, já que estava descartado de qualquer emprego. Todos sabiam que são pintados como bichos-papões, que a mídia deturpa tudo o que são e fazem. Mas sabem de sua força e de seus objetivos, sabem dos perigos do imediatismo e das dificuldades de uma vida dedicada à difícil luta pela dignidade do trabalhador rural, sabem do poder que tem sua organização e entendem a razão pela qual tentam desorganizá-los. Eles sabem de tudo isso. Nós, playboyzinhos universitários, é que sabemos nada e pouco temos a ensinar. Dessa nossa realidade vazia, não há o que passar adiante.

Os sem-terra contrastam conosco, os sem-alma com tudo. Tudo temos e tudo necessitamos, sem que sejamos algo mais que espectros translúcidos. Eles querem nada mais que não migrar e não integrar a nada atraente realidade das periferias urbanas. Querem nada mais que poder ser dignos trabalhadores rurais no Brasil, esse grande latifúndio… Que atue a dialética, pois essa balela de fim da história não convenceu.

 

Posted by Diana at 13:36:47 | Permalink | Comments (3)