Wednesday, January 10, 2007

Manifesto de uma leitora

E ainda há leitores no mundo? Aqueles que se apaixonam e se indignam, que perdem o sono, que enlinham o juízo, que riem e choram, que se metamorfoseiam depois de páginas de sabedoria? Convenhamos, segue existindo esse tipo raro que se prostra diante da boa leitura, em respeito aos exemplos da genialidade do engenho humano?

Bastam 5 lugares-comuns quaisquer e os iniciados na arte da degustação de criptos já põem tinta às suas idéias recém-aventadas. Escrevem-se 2 parágrafos/estrofes ao acaso, espera-se que alguém simule que os entende e aprecia e, assim, o caso já se pode dar por perdido, morto e enterrado. Depois da primeira folha de papel (ou, para os adeptos dos 0 e 1, depois do primeiro *.txt) molestada pelos desarrazoados, dá-se um jeito de insinuar uma alusão à crítica à cultura de massas, ao sentimento de não-pertinência à humanidade, a uma nova linguagem proveniente dos guetos de ciganos na Romênia ou a qualquer coisa que esteja em moda nos últimos dias. Afinal, seria ridiculamente constrangedor ser compreendido de verdade e todo esforço é válido para ganhar qualquer falso prestígio. Se caísse o véu da “leitura militante” ou da “verve inventiva”, sobraria a essência da leitura - a estupidez.

Se na última década se produziu mais informação do que nos anteriores 5.000 anos de história, tenhamos bom-senso para poupar a humanidade de nossas irreflexões e vaidade intectual. Será mais fácil a vida quando a auto-crítica passar a censurar os atentados à  mínima inteligência alheia. Afinal, além de perda de dinheiro, tempo e paciência, essas imbecilidades tachadas com “imprima-se” podem dar cabo ao pior dos males: a cegueira letrada. Muitíssimo mais grave que publicar uma leitura odiosa é obter respaldo por isso. Francamente, engolir a seco o triunfo das fraudes literárias - desde as fotologuísticas às tiragens milionárias - é tarefa das mais árduas.

Assim, por favor, deixemo-nos a nós leitores pasmar frente a uma frase bem elaborada, a uma ironia surpreendente, ao inimitável dom da boa-escrita. Deixemo-nos perguntar “como alguém pode conseguir escrever algo tão fantástico?”, deixemo-nos ter aquela ponta de recalque por não ter podido pensar (com mente e punho) de igual forma. Permitamo-nos esse deleite, não nos tentemos enganar com nossas superficialidades fastidiosas. Leiamos todos, escrevam os que têm habilidade e conteúdo suficientes para tal.

 Literatura é bela-arte em risco de extinção. Essa prática predatória da idiotice há de ser combatida.

Pelo direito de ler e não escrever. Pelo direitos dos leitores ávidos por produções criativas de qualidade. Pela boa leitura, moção de repúdio ao vazio verborrágico.

 * (Ah, Camões, a última das flores do Lácio não merece os insultos que são cometidos na concavidade do cálice de seu potencial criativo. Não merece.)

 

 

Posted by Diana in 13:02:17
Comments

4 Responses

  1. Diana muchas gracias por tu comentario en mi blog!, lamento no poder entender el portuguese y no leer los tuyos…

  2. Heydrich says:

    De fato, chagamos bem atrasados…

  3. Larissa says:

    Você vai ter que postar uma receita culinária da próxima vez para compensar esse texto… (rs) Belíssimo! “É nessa hora que eu vejo que você é realmente da minha família.” ;D

    Obrigada pelos prestimosos elogios quanto a minha vestimenta - elaborada por mim, diga-se de passagem, essencialmente para a minha (forjada) formatura. Eu sabia que você sentiria orgulho de mim. =)

    As fotos para o Jornal da Paraíba é mesmo uma sessão ‘Caras’. Mas quem não quer ser a Xuxa uma vez na vida?! Eu estava prestando um favor a uma repórter necessitada. ;)
    Mostro a matéria quando você estiver mais perto. Ah! Você não vai acreditar com quem dividi a página do jornal…

    E meu apartamento está ficando lindooooooo!!! Rsrsrs

  4. Heydrich says:

    Ainda em relação ao vinho, adoro uma frase de um professor meu : “No bordeaux você pensa, no Borgonha você fala, e no champagne você faz.”

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